escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista
Ela sorriu...
e naquele instante o tempo pareceu devolver ao mundo uma respiração antiga.
O sorriso — esse gesto que antecede a palavra —
rompeu o véu das defesas, deixou à mostra um brilho que nem ela sabia carregar.
Na psicanálise, é assim: um sorriso pode ser a confissão mais honesta,
o retorno repentino de algo que o inconsciente guardou com cuidado demais.
E ali, naquele pequeno aceno de luz,
a filosofia sussurra que o ser se revela no inesperado,
que há mais verdade no gesto espontâneo
do que nas certezas tão orgulhosamente construídas.
A teologia, por sua vez, diria
que Deus se esconde nas simplicidades,
que a graça não vem barulhenta —
ela chega assim, como um canto discreto
no canto da boca de alguém.
A poesia?
A poesia sabe:
um sorriso é sempre uma fresta por onde a alma escapa
para dizer que ainda acredita,
ainda deseja,
ainda pulsa.
Às vezes, basta um sorriso para denunciar
que a dor não venceu tudo,
que o coração, mesmo cansado,
ainda se lembra de nascer.
O que será que o seu sorriso revela que você ainda tenta esconder de si mesmo?