Você é um Menino (a) Bom (a)

escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista

Há uma delicadeza que habita o gesto de ser bom — uma delicadeza que, quando não encontra fronteiras, se converte em ferida.
A psicanálise nos lembra que o sujeito nasce do olhar do outro, mas se perde quando vive apenas para caber nele.
Por isso, ser luz não é iluminar qualquer espaço:
é escolher onde não ser apagado.

Nem todo sorriso é morada, nem toda intenção é chão firme.
A bondade que se estende até o limite do próprio abandono
não é virtude — é repetição.
E muitas vezes repetimos o que na infância aprendemos calados:
que o amor exige entrega total,
que para ser visto é preciso doer,
que para ser aceito é preciso dissolver-se.

A filosofia sussurra que a virtude está no meio-termo,
mas o meio-termo, na prática, é uma luta silenciosa entre
o desejo de acolher e o medo de desaparecer.
A teologia recorda que até Deus descansou ao sétimo dia,
como quem diz ao humano:
"até a luz precisa de sombra para continuar sendo luz".

E assim a vida nos pede maturidade afetiva:
continuar sendo luz,
mas não vela que derrete por qualquer calor.
Brilhar, sim — porém onde a nossa presença não seja usada
como combustível alheio.

Porque a paz interior não é fuga,
é fronteira.
É o gesto firme de quem aprendeu que ser do bem não significa ser acessível a todo mal.
É perceber que cuidar de si não é egoísmo —
é responsabilidade psíquica, ética e espiritual.

No fim, proteger-se é um ato de amor tão profundo
quanto aquele que oferecemos ao mundo.

“Ser luz é bonito — mas ser luz que não se apaga por ninguém é essencial.”

     

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