escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista
Dois corpos se encontram,
mas são duas histórias que se tocam
como feridas antigas buscando abrigo.
Ninguém chega pronto.
Ninguém chega limpo.
Carregamos na pele aquilo
que a memória não ousou lembrar.
E repetimos.
Repetimos o trauma,
o medo,
a ausência,
a queda —
como se o coração buscasse no outro
o cenário perfeito
para enfim
curar o que nunca encontrou palavras.
Ainda assim, amamos.
Porque o amor é esse mistério que desperta
mesmo nos que tremem.
É força que empurra até os que fogem.
É coragem que nasce dentro do medo.
O casal que permanece
não é o que não briga:
é o que atravessa junto
o furacão que cada um carrega por dentro.
Aprendem que cuidar de si
é também proteger o vínculo,
que ninguém salva ninguém,
mas dois que se cuidam
podem se encontrar no meio do caos
e escolher permanecer.
Sartre lembra:
somos responsáveis ​​pelo que fazemos
do que fizeram conosco.
E Nietzsche ecoa:
quem encontra um porquê
suporta qualquer como.

O amor amadurece
quando deixamos de pedir ao outro
que cure nossas sombras
e decidimos iluminá-las juntos.
A teologia sussurra seu segredo antigo:
amar é fazer aliança com o mistério do outro,
honrar a sua diferença,
guardar seu coração
como quem cuida de um templo.
E Levinas nos convoca:
ser adulto é responder pelo outro —
não como peso,
mas como promessa.
Então dois se tornam um pacto,
não por fusão,
mas por presença.
Duas solidões que se reconhecem;
dois desertos que aprendem a florescer.
Cada um mantendo a própria fronteira,
mas abrindo espaço
para o outro viver no centro.
O amor que permanece
não nasce pronto:
é obra,
é treino,
é construção,
é processo infinito de cuidar e ser cuidado.
É a coragem de olhar a escuridão
sem fugir da própria luz.
É poesia que se escreve a dois
com mãos imperfeitas
mas com vontade inteira.
Porque no fim,
amar — de verdade —
é escolher, dia após dia,
o trabalho silencioso
de crescer juntos
sem deixar de ser.