O homem e o medo de não ser suficiente

escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista

Há um medo que mora
sob a pele masculina,
um medo que ele esconde atrás do riso fácil
e das palavras fortes:

o medo de não ser suficiente para ela.
O medo de não ser escolhido.
O medo de atravessar a vida
sem que um olhar o reconheça como destino.

Ele teme ser pouco,
teme ser falho,
teme ser revelado e ainda assim
não ser querido.
Treme ao imaginar
que ao abrir o peito
só encontre eco.

Tem um menino dentro dele
que aprendeu cedo demais
que homem não chora
e que sentir é fraqueza.
Mas, quando a noite cai,
esse menino pergunta baixinho:

“Será que eu basto?”

E nenhum músculo responde.

Ele carrega fantasmas:
o ideal do pai,
o peso da sociedade,
a armadura que vestiu
para esconder a própria fragilidade.

Quer ser porto,
ser chão,
ser herói —
mas sempre teme ficar aquém.
Teme não ser necessário,
teme ser substituível,
teme ser apenas mais um corpo sem impacto na alma de ninguém.

A filosofia o atravessa como vento:
existir é risco,
amar é salto,
e ninguém é inteiro o bastante
para prometer eternidade ao outro.

Mas ele tenta,
porque o silêncio existencial o assusta.
E, entre ser o que é
e ser o que acha que deveria ser,
ele se perde no meio do caminho.

A teologia o chama pelo nome:
“Filho…”
Mas ele aprendeu a amar por desempenho,
a viver como quem precisa provar valor,
a merecer até o ar que respira.

Esquece que o sagrado
não exige que ele seja gigante,
exige apenas que ele seja verdadeiro.
Que a graça não se compra,
se recebe.

Então vem a poesia,
como quem segura o rosto dele entre as mãos:

Homem…
o medo que você esconde é o que te humaniza.

Você não nasceu para ser perfeito.
Você nasceu para ser encontro.

O amor que é seu
não exige espetáculo.
Exige presença.
Exige coragem para ser visto
sem armaduras,
sem títulos,
sem prova de valor.

A poesia lhe diz:

Você não teme não encontrar alguém.
Você teme que ninguém te descubra inteiro.

Mas o amor verdadeiro vem sem ruído,
vem sem pressa,
vem como quem já sabe teu nome
antes que tu o pronuncies.

E, quando ele enfim descansar
de provar o que nunca precisou provar,
uma voz doce — quase divina —
lhe dirá:

“Você é suficiente.”

     

Política de privacidade

Termos de uso ICPB

www.icpb.com.br

Todos os direitos reservados 2023-2024