escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista
Entre um homem e uma mulher,
o encontro começa antes do olhar —
num sussurro do desejo,
num gesto que ninguém vê,
numa falta que reconhece outra falta
como quem encontra abrigo no espelho da noite.
No começo, tudo é fácil,
tudo é promessa,
tudo é luz que não sabe ainda
que também faz sombra.
Ele chega com o medo antigo
de não ser o suficiente.
Ela chega com a ferida oculta
de não ser escolhida.
E os dois, mesmo sem saber,
se tocam mais pelos fantasmas que carregam
do que pelas mãos que estendem.
A psicanálise diria:
não são dois que se encontram,
são quatro —
eles e suas histórias que nunca foram embora.
E assim o amor se torna travessia.
Às vezes doce.
Às vezes árdua.
Nunca sem risco.
Porque amar é permitir que o outro
desarme nossas defesas mais antigas,
é deixar que ele veja o que escondemos até de nós,
é dar a alguém o poder de revelar
a nossa própria verdade.
A filosofia então sussurra:
liberdade é isso —
abrir a porta da alma
para um visitante que não controlamos.
Mas é aí que nascem os desencontros.
Ele cobra o que teme dar.
Ela entrega o que gostaria de receber.
Ambos exigem certezas
enquanto tremem por dentro.
E o amor pesa, não pelo que falta,
mas pelo que pedimos ao outro
quando ainda não damos a nós mesmos.
O amor não falha por sentimento.
Fracassa quando esperam o outro
preencher buracos que são da infância,
curar dores que têm nome de passado,
salvar feridas que nasceram
antes mesmo do primeiro beijo.
Mas às vezes — raras vezes —
o encontro acontece de verdade.
Não no corpo,
mas no reconhecimento.
Na coragem de despir a alma,
de dizer:
“eu não sou inteiro,
mas te encontro na minha metade.”
O encontro verdadeiro não promete, ele
permanece.
Não idealiza,
acolhe.
Não completa,
caminha ao lado.
E talvez amar seja apenas isso:
aceitar que existe uma distância entre nós,
e ainda assim
escolher atravessá-la.
“O amor não falha por ausência do outro, mais pela fuga de si mesmo."