escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista
O silêncio é uma casa sem paredes,
onde a alma se despede do mundo
para enfim lembrar de si.
É no intervalo entre um pensamento e outro
que surgem as verdades que evitamos — elas
chegam devagar,
com os pés descalços,
pedindo nome,
pedindo sentido.
A psicanálise sabe:
quando o barulho cala,
o inconsciente fala.
A filosofia responde em sussurro:
“Só pensa quem suporta o intervalo.”
E a teologia acende uma luz pequena,
aquela brisa onde Deus não grita,
mas se revela.
A poesia, essa antiga cúmplice,
faz florescer o vazio:
é no espaço entre duas palavras
que nascem mundos.
Há silêncios que machucam,
silêncios que curam,
silêncios que devolvem
o que o barulho roubou.
Há silêncios que nos colocam diante
do espelho que não mente,
onde a sombra busca luz
e o desejo tenta nascer.
Fazer silêncio não é fugir:
é voltar para casa,
é recolher o coração,
é ajustar o corpo
ao próprio peso.
Quem aprende a morar no silêncio
descobre que ele não é ausência —
é encontro.
E você — vai continuar fugindo do que escuta
ou finalmente terá coragem de se ouvir?