escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista
A solidão...
não é apenas a casa quieta,
é o vazio no fundo do olhar,
é a ausência de um reflexo que devolva o que você é —
ou o que ainda tenta ser.
É caminhar pelo mundo como quem carrega um rosto invisível,
onde ninguém toca, ninguém vê,
ninguém reconhece.
A filosofia chama isso de desencontro,
a psicanálise de falta,
a teologia de desamparo,
a poesia… de exílio da alma.
Chegar em casa e encontrar tudo organizado
é perceber que a ordem perfeita dói.
As coisas sempre no mesmo lugar,
como se o tempo estivesse parado numa fotografia fria,
denunciando:
ninguém passou por aqui além de você.
E o desejo secreto, tão humanos dos humanos,
é simples —
que houvesse alguém para desorganizar a organização perturbadora.
Uma xícara deslocada,
um livro esquecido no sofá,
um perfume no ar que não fosse o seu.
Qualquer vestígio de vida alheia
que dissesse baixinho:
“você não está só.”
Mas as pessoas…
essas veem símbolos, não sujeitos.
Enxergam o que você representa,
jamais o que você sente.
E o humano — esse frágil, carente, tremendo —
fica escondido atrás da máscara
como um cômodo proibido da casa.
Até que, numa fresta de tempo,
alguém aparece.
E por um instante raro, precioso,
o vê.
Não o papel, não o brilho, não o discurso —
mas a alma cansada que pedia socorro
em silêncio.
E o coração, acostumado às sombras,
se ilumina de esperança.
Porque talvez tenha encontrado, enfim,
o outro que reflete,
o outro que escuta sem palavras,
o outro que devolve existência
com um único olhar.
A teologia chama isso de graça.
A filosofia, de encontro.
A psicanálise, de reconhecimento.
A poesia… apenas sorri,
porque sabe que um olhar assim
é o milagre que sustenta um mundo inteiro.