escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista
No final das contas, amor mesmo é ter para onde voltar depois de um dia difícil, quando o mundo parece áspero demais para ser tocado.
É esse lugar onde o cansaço encontra colo, onde a alma — tão cheia de rachaduras — se permite desarmar.
A filosofia diria que é o retorno ao que nos funda; a teologia, que é o eco do sagrado nos abrigando; a psicanálise, que é o reencontro com o outro que costura nossas faltas sem tentar preenchê-las demais.
Porque amor, antes de tudo, é essa arte fina de dividir silêncio e riso — silêncio que não pesa, riso que não escapa por obrigação.
É o espaço entre duas respirações onde a alma do outro se encaixa, como se fosse sempre ali o seu destino. É o diálogo que acontece sem palavra, quando o corpo diz o que a boca não sabe nomear.
Amor é deitar ao lado de alguém e pensar: “que sorte a minha de ter você aqui”.
Não como quem encontrou uma muleta, mas como quem reconhece um milagre cotidiano — desses que não brilham, mas sustentam.
É sentir que, apesar das cicatrizes, você ainda merece aconchego. Que, apesar das lutas, existe alguém que escolhe ficar. Que, apesar do caos, existe um lar que não é endereço, mas presença.
No fundo, o amor é isso: duas existências que se reconhecem nos seus abismos e ainda assim permanecem.
Um sacramento íntimo, uma poesia que se escreve no toque, uma verdade que não precisa provar nada — apenas ser.