escrito por Ronaldo de Mattos
A raiva chega primeiro — como um trovão que não pede licença.
Ela rasga o peito, faz o coração tremer na caixa torácica como quem tenta escapar de si.
E, no entanto, a psicanálise sussurra: não é o outro que te fere — é a ferida que o outro desperta.
A raiva é só o nome que damos ao corte antigo quando ele volta a sangrar.
O engano, esse visitante silencioso, chega depois.
Ele carrega o rosto do amor, mas seus passos têm o peso da desilusão.
A filosofia diria que o engano é o preço da liberdade de amar:
só se engana quem ousa acreditar.
E talvez acreditar seja o mais profundo ato de fé — e também o mais arriscado.
O rompimento, então, não é um gesto
mas um terremoto.
É o instante em que o “nós” se desfaz e cada um volta a caminhar com suas próprias sombras.
A teologia conhece esse deserto:
há rupturas que parecem cruzes,
há silêncios que parecem sepulturas,
mas o terceiro dia sempre chega, ainda que tarde, ainda que cansado.
Escrever sobre o ódio é tocar fogo com as mãos nuas.
O ódio não nasce do nada — ele é amor ferido, amor frustrado, amor que não sabe onde colocar tanto excesso.
Ele é desejo deformado pela dor.
E a psicanálise, paciente, nos lembra:
o ódio é um laço tão forte quanto o amor,
às vezes até mais,
porque se agarra ao que faltou e não ao que houve.
Mas o amor…
ah, o amor é esse animal indomável que insiste em viver mesmo entre as ruínas.
Ele não morre no fim — apenas muda de forma.
Ele se recolhe, se contrai, se cura lentamente,
esperando um novo olhar que não fira,
uma nova pele onde o desejo possa respirar sem medo.
E o desejo, esse mensageiro inquieto,
não pede licença à teologia,
não teme a filosofia,
não se dobra à análise.
O desejo é o sopro que Deus deixou no corpo
para que a vida não se tornasse apenas dever,
mas também chama, risco, travessia.
No fim, tudo isso — a raiva, o engano, o rompimento, o ódio, o amor e o desejo —
são apenas as línguas pelas quais a alma tenta falar.
E, se ouvirmos com cuidado, perceberemos que nenhuma delas é o fim.
Todas são apenas caminhos.
Todas são apenas modos de dizer:
eu estou vivo, e ainda busco algo que valha a pena tocar.