escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista
Há almas que amam como quem sangra.
Que confundem o toque com abrigo, o grito com presença, o controle com cuidado.
Elas não buscam amor — buscam cura.
E o que chamam de amor é, na verdade, a tentativa inconsciente de sarar uma ferida antiga.
O corpo está no presente, mas o afeto ainda mora na infância,
lá onde o amor vinha misturado com medo, e o afeto tinha gosto de tensão.

A dependência emocional, nesses casos, não é escolha: é compulsão.
Uma compulsão ao narcisista, ao abusador, ao violento
como se o sujeito buscasse, sem perceber, reviver o trauma para tentar reescrevê-lo.
Mas o roteiro é sempre o mesmo: o amor se repete como castigo,
e o coração, como um fiel servo, retorna ao lugar da dor acreditando que, desta vez, será diferente.
É o retorno ao conhecido,
à familiaridade do caos,
à ilusão de que a violência pode se transformar em ternura
se o amor for grande o bastante.
Na leitura psicanalítica, essa é a prisão do inconsciente:
o desejo de curar o passado através do presente.
A criança ferida continua lá, dentro do adulto que ama mal.
Ela ainda acredita que, se suportar, se agradar, se for perfeita, finalmente será escolhida.
Mas o que retorna, repetidamente, não é o amor — é o trauma disfarçado de afeto.
O sujeito não se apaixona pela pessoa em si, mas pelo cenário familiar da dor.
Ama quem fere, porque aprendeu que o amor sempre doía.
E então se ouve o sussurro: “meu precioso...”
Não é apenas o apego, é o grito da ferida que não quer morrer.
O trauma fala através desse “meu”,
pedindo, em desespero, que o outro repare o que o tempo destruiu.
Mas o outro — o narcisista, o violento, o controlador —
só reabre o que jamais foi fechado.
E assim, o ciclo se repete,
até que o sujeito perceba que a cura não está em conquistar o olhar que fere,
mas em olhar, com ternura, para a própria infância esquecida.
Porque quando o amor vira “meu precioso”,
o que se protege não é o outro —
é a ferida que ainda não aprendeu a cicatrizar.