escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista
Olha pra mim...
Não com os olhos cansados do costume, nem com a pressa dos dias que esquecem a alma.
Olha pra mim como quem vê — não o corpo, mas o invisível que pede abrigo.
Há em cada olhar uma confissão silenciosa: o desejo de ser reconhecido, não pelo que faço, mas por quem sou quando ninguém está me vendo.
Na teologia, o primeiro olhar é o de Deus sobre o barro — um olhar que cria. “E viu Deus que era bom.”
Desde então, o humano caminha mendigando olhares que confirmem sua existência.
Porque antes da palavra, é o olhar que nos nomeia.
Sem ele, não há rosto, apenas sombra.
Olha pra mim, então, e me diz — sem dizer — que eu não sou um acidente do tempo.
A psicanálise sabe: o sujeito nasce do olhar do Outro.
É nesse espelho que se constrói o “eu” — precário, desejante, faltante.
O olhar do outro é o primeiro útero simbólico.
É nele que nos reconhecemos, e é dele que, por vezes, fugimos, temendo a nudez de sermos vistos demais.
Mas sem esse olhar, desabamos no vazio da inexistência.
Não é o amor que salva — é o olhar que o torna possível.
A filosofia diria que ser é aparecer.
Mas aparecer diante de quem?
Ser visto é ser lembrado do mistério de existir.
E o amor talvez seja isso: a coragem de permanecer olhando, mesmo quando o outro já não se mostra belo, mesmo quando a alma está nua e trêmula.
Olhar é dizer: “Eu reconheço a tua falta e ainda assim fico.”
Olha pra mim...
Não para preencher o que te falta, mas para ver o que em mim te reflete.
Porque, no fundo, somos feitos desse espelho mútuo — eu me vejo quando me vês.
E talvez seja aí que Deus mora: nesse instante em que dois olhares se encontram e o mundo, por um breve segundo, volta a ser criação.
Olha pra mim — e eu existo.