escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista
Amar uma mulher que já visitou o abismo e retornou é um ato de coragem e lucidez. Ela traz nos olhos a lembrança do que se partiu, mas também a sabedoria de quem aprendeu que o amor não é abrigo, e sim travessia. Não busca salvação — busca presença. Porque quem já sangrou na alma aprendeu a desconfiar das palavras e a acreditar no gesto, na verdade que se revela sem som.
Amar uma mulher marcada é entrar num território onde cada cicatriz guarda uma história e cada silêncio é uma oração. Suas defesas não são muros — são formas de preservar o que ainda pulsa. Já foi ferida por amores que prometiam eternidade, por isso hoje quer apenas coerência: o toque que corresponde ao olhar, o desejo que respeita, a paixão que cuida.
Na linguagem da psicanálise, ela é o sujeito que sobreviveu ao gozo da dor e soube transformar o sofrimento em significação. Já não busca um outro que a repare, mas alguém que a veja. Ela compreende, mesmo sem saber, que o amor mais verdadeiro não tenta curar, apenas oferece espaço para que o outro exista. E é justamente nesse espaço de liberdade que a cura se insinua — no amor que não exige, mas sustenta; que não invade, mas acolhe.
Amar essa mulher é aceitar o movimento da vida: nada dura, tudo se transforma. É reconhecer que o amor não é fusão, mas diálogo entre dois seres inteiros, duas solidões que se tocam sem se devorar. Amar, então, é o exercício mais maduro da liberdade — permanecer junto sem se perder de si.
Talvez o amor por essa mulher seja o encontro entre o cansaço e a esperança. É olhar suas ruínas e ver nelas o rastro de uma força que insiste em existir. É dizer, não com promessas, mas com presença:
“Não quero te curar — quero caminhar contigo.”
Porque o amor que sobrevive à dor não precisa ser gritado.
Ele simplesmente permanece.