escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista
Por trás do “eu amo você”, há muito mais do que o som de três palavras. Há um abismo delicado onde a alma tenta se fazer compreender. Dizer “eu amo você” é tocar o mistério de existir, é confessar a falta e, ao mesmo tempo, o desejo de plenitude. É a tentativa humana de costurar o invisível — aquilo que falta em mim com aquilo que imagino existir em você.
Amar é um gesto teológico, porque só quem acredita no invisível ousa entregar-se ao outro. É um ato de fé, um “faça-se” pronunciado no escuro, sem garantia de retorno. Quando o amor nasce, repete-se o gesto da criação: o ser se abre, o eu se desfaz, e algo novo começa a respirar entre dois. Talvez por isso o amor seja também divino — não por sua perfeição, mas pela coragem de continuar mesmo sabendo-se frágil.
Cada “eu amo você” carrega ecos de antigas vozes — do amor que não tivemos, da presença que nos faltou, da primeira ausência que aprendemos a suportar. Amamos o que nos completa e o que nos fere, o que nos faz lembrar e o que promete apagar as lembranças. No amor, repetimos velhos roteiros tentando escrever um novo final. Amar é assumir o risco da transformação. É aceitar que, ao amar, algo em nós morre e algo em nós nasce. Não há amor sem perda, e talvez o amor verdadeiro seja aquele que suporta perder um pouco de si para que o outro exista.
O “eu amo você” é, portanto, um poema dito entre o sagrado e o inconsciente, entre o corpo e o mistério. É a voz que tenta nomear o indizível, o gesto que cria sentido onde só havia falta. Quando alguém diz “eu amo você”, confessa, sem saber, o desejo de ser visto, reconhecido e salvo — não por outro humano, mas pelo olhar que devolve sentido à própria existência.
E talvez seja isso o amor: o lugar onde Deus e o inconsciente se encontram em silêncio. Onde o verbo se faz carne no risco do afeto. Onde a falta se transforma em presença.
Por trás do “eu amo você”, o que se diz, em verdade, é: “eu não sei amar, mas mesmo assim escolho tentar.”