O Medo de Ser Feliz

escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista

Há términos que não nascem do fim do amor,
mas do medo de vivê-lo por inteiro.
Quando o desejo pulsa, o sentimento insiste,
mas o inconsciente grita: “cuidado, isso dói”.

O amor está ali — vivo, ardente, promissor —
mas as sombras do passado rondam o presente,
soprando lembranças de dores antigas, de amores que traíram,
de promessas que se quebraram antes mesmo de nascer.
E então o medo veste o disfarce da razão,
e o sujeito foge — não do outro, mas do que sente.

Na psicanálise, chamamos isso de repetição:
a tentativa inconsciente de evitar o sofrimento,
recriando o mesmo cenário que se quer escapar.
O sujeito teme o amor porque nele pressente a perda,
teme a paz porque nela pressente o vazio,
teme a felicidade porque aprendeu a sobreviver no caos.

O medo, aqui, não é falta de coragem —
é fidelidade à dor antiga.
É como se o inconsciente dissesse:
“Não confie na leveza, ela pode acabar.”

E assim, por medo de se perder, o sujeito se despede.
Deixa ir o amor que poderia curar,
abandona o desejo que poderia reconstruir,
renuncia à paz que tanto pediu em silêncio.

Mas há algo de profundamente humano nisso:
amar é sempre um risco.
Porque o amor verdadeiro não garante, ele expõe.
Ele nos obriga a olhar para o passado e escolher:
repetir ou recomeçar.

Encerrar um amor por medo da felicidade
é um modo inconsciente de continuar preso à dor —
é não suportar a leveza, porque ela exige responsabilidade.
A felicidade, afinal, não é ausência de dor,
é coragem de sustentar o que é bom sem destruir.

E talvez o grande aprendizado seja esse:
amar é suportar o susto de se ver feliz.
Porque às vezes o medo que sentimos do outro
é apenas o medo de, finalmente, encontrar a paz que sempre dissemos querer.

“No amor não há medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo.”
(1 João 4:18)

     

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