escrito por Ronaldo de Mattos - Psicanalista â¹
Há um grito que ecoa dentro da alma quando o tempo não se curva ao nosso desejo.
Ainda não… — repete o coração cansado — como se o “não” fosse sentença e o “ainda” uma brecha de esperança.
A vida nos educa pela frustração.
Queremos o amor pleno e recebemos o quase.
Buscamos reconhecimento e encontramos o silêncio.
Sonhamos com estabilidade e tropeçamos nas incertezas do próprio chão.
Entre o querer e o poder, a falta se instala — e é nela que o sujeito se faz.
Na psicanálise, o “ainda não” é a morada do inconsciente:
o desejo suspenso, o gozo adiado, a promessa de uma completude que nunca virá, mas que insiste em nos mover.
Porque o que nos faz seguir não é o que temos, mas o que falta.
A falta é motor, é fenda por onde entra o ar da existência.
Sim, há inseguranças que nos habitam como sombras.
Há medos que nos colocam diante da nossa nudez simbólica.
E há frustrações que nos desarmam — não para nos destruir,
mas para nos lembrar que o controle é uma ilusão e que a vida é, antes de tudo, travessia.
Mas há algo além do “ainda não”.
Há um “virá” que não é do tempo cronológico,
é do tempo da fé, do tempo em que o sujeito se rende ao Mistério e diz:
“Mesmo que eu não veja, eu creio.”
E assim, entre o inconsciente que insiste e o Deus que espera,
o homem se refaz.
A análise nos convida a suportar o vazio sem idolatrar a falta,
e a fé nos recorda que esse vazio também pode ser morada de Deus.
Porque às vezes, o “ainda não” não é negação — é gestação.
É o intervalo sagrado onde o desejo amadurece e a alma aprende a respirar.
“O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.”
(Salmos 30:5)
E quem sabe, quando o dia nascer, o “ainda não” se transforme em “agora sim” —
não porque tudo se completou,
mas porque o coração aprendeu a habitar o inacabado.