Reflexão Psicanalítica - O homem recuar...

Por Ronaldo de Mattos - Psicanalista

O que faz um homem recuar diante do próprio desejo?
Ama, deseja, mas teme a mulher que está diante de si. Esse temor não é simples covardia: é a marca de um conflito arcaico, enraizado na primeira relação de amor – aquela vivida com a mãe.

A psicanálise nos ensina que o encontro com o feminino é sempre atravessado pela sombra materna. Freud já indicava que a escolha amorosa, muitas vezes, se divide entre duas vias: a mulher que encarna o amor materno e a mulher que se distancia dele, sendo a “proibida”, a outra. Nesse impasse, o homem oscila entre repetir e rejeitar.

A mãe pode ser norte ou sombra. Norte, quando o legado da relação originária permite ao sujeito reconhecer o feminino como alteridade, sem precisar dominá-lo ou recuar dele. Sombra, quando essa mesma presença se torna um peso insuportável, produzindo no homem a necessidade inconsciente de rejeitar na parceira aquilo que, nele, permanece não resolvido com a mãe.

Nesse ponto, o homem se encontra diante de seu abismo: amar uma mulher é como tocar o fogo e, ao mesmo tempo, temer queimar-se. Ela é vida que chama, mas também é lembrança do interdito que o persegue desde a infância. Entre o eco do colo materno e o chamado do desejo adulto, ele vacila — dividido entre repetir o passado ou arriscar-se no novo. Nesse instante, cada encontro amoroso se torna um duelo silencioso entre Eros e a Lei, entre o impulso de possuir e a necessidade de reconhecer a alteridade que o constitui.

Se o homem não consegue honrar essa figura originária – não como ídolo, mas como lugar de reconhecimento simbólico –, ele tende a permanecer fragmentado em seus vínculos. Pois só ao atravessar a relação com a mãe, com seus limites e impossibilidades, poderá se abrir a um amor inteiro, em que o desejo não seja ameaça, mas caminho de encontro.

Amar uma mulher, então, é mais do que conquistar: é enfrentar o fantasma da primeira mulher de sua vida.

     

Política de privacidade

Termos de uso ICPB

www.icpb.com.br

Todos os direitos reservados 2023-2024