Texto por Ronaldo de Mattos - Psicanalista
Existe textos que nos deparamos pensando se eles são realmente possíveis de viver, pois nossa imaginação tomada por valores romantizados pelo Romantismo do final do século XVIII e tendo seu apogeu no século XIX nos desafia ao interpretamos o que sentimos e o que lemos.
Nossas fantasias apresenta em muitas ocasiões o impossível e até a ilusão nos adoece ao ponto de sofrimentos terríveis.
Pensando nisso resolvi fazer algumas interpretações bíblicas e teológicas com o olhar psicanalítico.
Pense comigo:
Quando Paulo escreve: “Homens, amem suas esposas como Cristo amou a Igreja e se deu por ela” (Ef 5:25) e “Mulheres, sejam submissas aos seus maridos” (Ef 5:22), não está fundando uma lógica de poder, mas propondo um enigma relacional.
Do ponto de vista psicanalítico, o amor como o de Cristo é a metáfora da renúncia narcísica. Freud já dizia que amar é “ceder parte do narcisismo em favor do objeto” (Introdução ao Narcisismo, 1914). Amar, portanto, é deslocar o centro do eu para que o outro possa existir como sujeito de desejo — não apenas como extensão das próprias carências.
A palavra “submissão”, tão mal interpretada, pode ser lida simbolicamente como ato de confiança. Lacan lembra que “amar é dar o que não se tem a alguém que não é” (Seminário 8, A Transferência). Submeter-se, nesse sentido, não é servidão, mas a ousadia de confiar no lugar do outro, abrindo mão do controle total.
Teologicamente, Agostinho via o matrimônio como um vínculo onde ambos se tornam “um só corpo em caridade”. Isso ressoa com a ideia psicanalítica de laço: não há sujeito sem alteridade, não há encontro sem renúncia.
Assim, o vínculo homem–mulher não se sustenta no poder, mas na reciprocidade simbólica:
🔹 o homem, amando até a renúncia;
🔹 a mulher, confiando até a entrega;
🔹 ambos, criando um espaço onde a falta não separa, mas une.
No fim, amar como Cristo amou é o gesto radical de suportar a alteridade — deixar de ser tudo, para que o outro possa ser alguém.