A solidão não depende da presença física de outros — ela nasce da falta de laço simbólico. Para a psicanálise, o que sustenta um sujeito não é a quantidade de pessoas à sua volta, mas a qualidade do vínculo que ele estabelece com o Outro. Podemos estar em festas, grupos, redes, e ainda assim sentir o vazio de não sermos realmente vistos, escutados ou reconhecidos em nossa singularidade.
Freud já mostrava que a constituição do eu depende de um primeiro olhar que dê lugar ao sujeito. Quando esse olhar falha — seja por ausência, excesso ou confusão —, o indivíduo aprende a se aproximar dos outros sem realmente se sentir inscrito neles. Ele está junto, mas não pertencente. Rodeado, mas não acolhido.
Lacan acrescenta que todo ser humano é estruturalmente marcado por uma solidão fundamental: ninguém pode desejar ou sofrer em nosso lugar. Há um ponto em cada sujeito que é irredutivelmente só. Mas o sofrimento nasce quando essa solidão estrutural se transforma em solidão afetiva — quando o sujeito sente que sua palavra não encontra endereço, que sua presença não faz diferença.
Mesmo rodeado, o sujeito pode se perceber invisível. As conversas tornam-se superficiais, os sorrisos automáticos, os vínculos funcionais. A solidão, então, não é falta de pessoas, mas falta de encontro. Falta um outro com quem se possa existir, tropeçar, ser imperfeito. Falta o espaço onde a palavra tenha peso e onde o silêncio não seja abandono.
Na clínica, esse tipo de solidão costuma aparecer como sintoma do desencontro consigo mesmo. Não é apenas o outro que parece distante: é o próprio eu que está fragmentado, exausto, desconectado do seu desejo. Quando o sujeito começa a reencontrar a própria voz, a solidão muda de cor — deixa de ser buraco e se torna espaço. Deixa de ser desespero e vira possibilidade de encontro verdadeiro.
Estar rodeado e sentir-se só é, muitas vezes, o pedido silencioso de um vínculo que ainda não se encontrou — tanto com o outro quanto consigo mesmo.
Associados I.C.P.B.