O corpo fala quando a palavra falha

Para a psicanálise, o corpo nunca é apenas biológico — ele é também um texto. Quando algo não pode ser dito, pensado ou simbolizado, o corpo escreve. Sintomas, dores difusas, tensões, insônias, palpitações: nada disso é mero acaso. São mensagens que o sujeito envia a si mesmo quando a linguagem não dá conta de nomear o que o atravessa.

Freud já observava que aquilo que é recalcado retorna. Se não retorna em palavras, retorna no corpo. A angústia que não encontra nome se converte em aperto no peito; a raiva que não se autoriza surge como dor de cabeça; a tristeza não dita aparece como cansaço sem causa. O corpo se torna porta-voz daquilo que não pôde ser ouvido na vida psíquica.

Lacan diria que o sintoma é uma solução do sujeito — não no sentido de cura, mas de tentativa. É o jeito que o inconsciente encontra para se expressar quando o discurso consciente se fecha. O corpo, então, fala a linguagem do excesso, da repetição, da sensação: ele marca onde o significante falhou, onde a palavra não entrou.

Não se trata de romantizar o sofrimento corporal, mas de reconhecê-lo como mensagem. O sintoma não é inimigo: é sinalizador. Ele aponta para a fala perdida, para o afeto não simbolizado, para o conflito que ficou à margem da consciência. Quando o sujeito escuta esse corpo — na clínica, na palavra, no tempo —, abre-se um espaço para que aquilo que era carne se transforme novamente em linguagem.

O corpo fala quando a palavra falha porque o inconsciente não silencia. Ele insiste, procura saídas, encontra brechas. E, muitas vezes, o caminho do cuidado começa justamente aí: na escuta dessa fala muda que o corpo tenta, desesperadamente, traduzir.

 

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