O homem entre tradição e vulnerabilidade

A subjetividade masculina vive hoje um ponto de tensão. De um lado, carrega séculos de tradição que moldaram a figura do homem como aquele que não vacila, não demonstra fraqueza, não sente medo. De outro, enfrenta um mundo que convoca justamente aquilo que essa tradição tentou silenciar: a vulnerabilidade. Entre esses dois polos, o sujeito contemporâneo tenta existir.

Freud já mostrava que o ideal do eu — essa instância que regula nossos padrões internos — é formado a partir das expectativas culturais. No caso dos homens, esse ideal sempre foi rigidamente estabelecido: força, controle, autossuficiência. O homem deveria ser invencível, impenetrável, quase impermeável ao sofrimento. Essa imagem heroica funciona como defesa, mas cobra seu preço: o recalque da fragilidade, o silenciamento das emoções, a solidão afetiva.

Na psicanálise, não se trata de demonizar a tradição, mas de compreendê-la como um significante que sustenta determinados modos de ser. A vulnerabilidade, por sua vez, não se opõe a ela como fraqueza, mas como retorno do recalcado. O que aparece hoje — nos discursos, nos sintomas, nas crises — é o que sempre existiu, mas não podia ser dito: a dor, o desamparo, o medo de falhar, o desejo de ser amparado.

O homem contemporâneo vive o conflito entre esses dois registros: a promessa de força absoluta e a experiência real da falta. Essa falta, porém, não é uma falha moral — é constitutiva do humano. A vulnerabilidade não desmantela o sujeito; ela o funda. Permitir-se sentir, reconhecer limites, pedir ajuda: tudo isso rompe o mito viril, mas aproxima o homem de si mesmo.

Na clínica, é comum ver homens que chegam dizendo “não sei mais quem devo ser”. É nesse ponto que algo se abre. Quando o ideal heroico começa a ceder, surge a possibilidade de um modo de existir menos pautado pela obrigação de ser forte e mais pela autorização de ser humano.

Entre tradição e vulnerabilidade, o homem moderno não precisa escolher um lado. Ele pode transformar essa tensão em espaço de criação subjetiva — onde a força não é armadura, mas capacidade de sustentar a própria falta, e onde a vulnerabilidade não é ameaça, mas verdade.

 

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