Colunistas

Sinais de um pentecostalismo genuíno

Por Wallace Góis

Ser pentecostal não é ser melhor que os “não pentecostais”, mas também não é estar numa categoria inferior como muitos sugerem. Por outro lado, ninguém vai deixar de ser salvo porque não acredita ou não experimentou o batismo com o Espírito Santo como nós, pentecostais, acreditamos. Mas, é importante saber que os pentecostais pregam e vivem um estilo de fé que tem raízes históricas e doutrinárias antigas, que sempre se renovam para os nossos dias. A proposta do pentecostalismo é a de vivermos um cristianismo de sinais, mas é justamente sobre os tipos de sinais que vamos falar, porque ser pentecostal é muito mais do que falar em línguas ou gostar de cultos mais animados.
Pentecostal vem da palavra “Pentecostes”, uma festa judaica que celebrava as colheitas e a aliança de Deus com seu povo 50 dias após a Páscoa (Êx 34.2; Dt 6.6-12). Os judeus iam a Jerusalém entregar as primícias de suas colheitas em louvor ao Senhor da vida, que permitiu que as plantações fossem bem-sucedidas. Mais do que uma oferta, celebrar Pentecostes era oferecer em gratidão a Deus algo que fazia parte da vida das pessoas, porque grande parte do povo daquela época sobrevivia da agricultura.
Foi numa festa de Pentecostes como esta que o Espírito veio sobre os discípulos e discípulas de Jesus que estavam esperando pelo cumprimento da promessa que um dia fora feita (At 2). O Consolador, que antes agia de forma restrita sobre determinadas pessoas para executarem tarefas específicas como a função de profeta, rei ou juiz, agora é derramado “sobre toda a carne”, como predisse Joel. O dom do Espírito já não pode mais ser considerado exclusivo de certo pregador ou líder. Como extensão do rasgamento do véu na morte de Cristo, que simbolizou o fim da barreira entre Deus e os seres humanos, o Espírito Santo, que é Deus, espalhou-se como chamas ao vento e alcançou todas as nações. E tudo começou no cenáculo, onde se falava aramaico (a língua da região dos discípulos), mas naquele dia, os presentes foram capazes de falar vários outros idiomas, conforme o relato de Atos. Isso representa o alcance e a diversidade que Deus pretendeu com o Pentecostes.
Porém, nem tudo são flores, e ao longo dos séculos, por muitas vezes e de várias formas se tentou sufocar o Espírito, e em muitas delas a própria igreja foi a protagonista. Esta, seduzida pelo poder político e econômico eliminou quase totalmente os movimentos que acreditavam nos dons e na possibilidade de que todas as pessoas poderiam ter acesso ao Espírito Santo. No entanto, de tempos em tempos Deus levantou avivamentos encabeçados por homens como Jonathas Edwards, John Wesley, Hudson Taylor, entre outros, que revolucionaram a história do cristianismo na Europa e nos Estados Unidos, principalmente.
Em abril de 1906, na Rua Azusa, em Los Angeles, EUA, destacou-se um grupo de cristãos, cuja maioria era composta por negros, mulheres e imigrantes, especialmente latino-americanos, que experimentou um avivamento que jamais foi visto antes. Estas características seriam meros detalhes se o contexto da época não fosse um misto de muitas mudanças sociais, avanço industrial, crises econômicas, racismo, machismo e nacionalismo muito fortes.Deus parecia estar mandando algum recado para a época, e esse foi um sinal…
Entre muitas manifestações espirituais, como o falar em línguas, curas, profecias e conversões, iniciava-se (novamente) o movimento pentecostal, onde o Espírito de Deus era livre para atuar, e os crentes que o recebiam se entregavam de corpo e alma ao serviço do Reino de Deus. Muitos outros grupos ligados ou totalmente independentes do avivamento de Azusa surgiram antes e depois daquele grupo, em várias partes do mundo, mas até onde se sabe, foi de lá que partiram as maiores frentes de missões pentecostais da história.
Dois anos depois,na outra ponta dos EUA, um evangelista metodista chamado John Stroup (1853-1929) também foi batizado com o Espírito Santo, e foi pioneiro da pregação pentecostal em sua região. Em 1917, juntamente com um pequeno grupo de cristãos, iniciou a Pentecostal Church of Christ (Igreja de Cristo Pentecostal), que em 1934 enviaram o irmão Horace Ward ao Brasil, onde, em 1937, fundou a primeira ICPB.
No Brasil, os pentecostais são 60% dos evangélicos, isto é, 22 milhões, e são o grupo protestante que mais cresce. Historicamente as igrejas pentecostais acolheram principalmente as pessoas mais pobres e marginalizadas, e se encarregaram de dar vez e voz aos que não tinham, como trabalhadores rurais, industriais e empregadas domésticas que no dia a dia não tinham valor nenhum perante a sociedade, mas encontravam acolhimento e dignidade nas igrejas. Os cultos lhes davam mais força para suportar o sofrimento e lutar contra os males que pudessem. Por muitos anos, o público pentecostal foi em sua maioria composto por nordestinos, migrantes, de classe econômica baixa e com pouco acesso aos estudos formais. Outros públicos mais favorecidos também se aproximaram, mas ainda são minoria.
Segundo as estatísticas mundiais, os cristãos identificados como pentecostais e carismáticos (tradicionais históricos com aspectos pentecostais) somam cerca de 600 milhões, formando o segundo maior grupo cristão do mundo.
Em tempos de comemoração do aniversário da ICPB, é importante lembrarmos e preservarmos nossas raízes históricas e teológicas. A mensagem pentecostal se resume em quatro pontos baseados na pessoa de Jesus, afirmando que ele salva pecadores, cura doentes, batiza com o Espírito Santo e em breve retornará em glória. Todos que recebessem o poder de Deus numa reunião pentecostal eram encorajados a testemunhar sua fé, e assim muitos homens e mulheres se lançaram às missões e à luta por direitos civis, como o voto das mulheres e a extinção do racismo.
Mas, infelizmente, a mensagem pentecostal, principalmente quanto ao batismo do Espírito e as curas tem sido evitada em muitas igrejas pentecostais, o que contraria o princípio bíblico de que os que crerem podem presenciar sinais (Mc 16.17). Em outros casos, a ânsia por ver ou mostrar sinais tem distorcido e levado as igrejas a extremos perigosos como a promessa de milagres a granel, manifestações que beiram à insanidade e a chamada teologia da prosperidade, segundo a qual todo crente deve ser rico e saudável, ou então não tem fé ou está em pecado, para citar alguns exemplos.
A fé pentecostal é extraordinária não somente porque defende ser possível e necessário um revestimento de poder divino em nossos dias, mas sempre deixou claro que ninguém que tem esse privilégio permanece do mesmo jeito, sem fazer nada pelo Reino de Deus. A marca de um verdadeiro pentecostal não é apenas o sinal de línguas. Assim como os crentes de Azusa e dos nossos pioneiros, que ao vivenciar a vinda do Espírito Santo recordemos que ele não veio para outra coisa senão para nos impulsionar a transformar o máximo que pudermos o mundo que nos cerca, combatendo com coragem os males de nossos tempos como a mornidão espiritual, a injustiça, a falta de amor. Essas coisas aumentam porque temos diminuído nossa presença onde realmente devemos estar por nos distrairmos com eventos, disputas de poder e fama.
O Reino de Deus (a vontade de Deus para a humanidade) não pode ser plenamente cumprido por nós, mas a nossa missão é sinalizar o Reino. Isso quer dizer que nossas palavras, ações e pensamentos devem ser expressões da vontade de Deus. O evangelho, que para nós se renova em Pentecostes, nos convida uma vez mais a fazer diferença em nossa sociedade, anunciando a salvação e a vida em abundância, até que Jesus volte e complete perfeita e definitivamente o trabalho que Ele nos confiou, e faça novas todas as coisas (Ap 21.5).

Wallace de Góis Silva é diácono da ICPB em São Bernardo do Campo, SP, e professor de Teologia Sistemática no Setepeb – ABC Paulista. Atua como pregador e palestrante. Graduou-se em teologia pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa mestrado em Ciências da Religião, pesquisando a história e a teologia do pentecostalismo e da ICPB.
Para convites e informações acesse:
E-mail: wallacegois@aol.com | Blog: wallacegois.blogspot.com | Facebook: fb.com/palavraqtransforma

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