Doutrinário

A autonomia das igrejas apostólicas

Muitos cristãos têm perguntado: Qual é o sistema de governo eclesiástico realmente bíblico? É o sistema de governo episcopal, presbiteriano ou congregacional? Embora a igreja cristã seja quase 100% regida pelo Novo Testamento, é prudente entendermos que o mesmo não dá nenhuma orientação precisa ou rigorosa sobre o assunto, apenas ele nos ajuda com alguns textos sugestivos. Assim como a Bíblia Sagrada em nenhum lugar se preocupa em nos oferecer qualquer prova racional da existência de Deus ou nos fazer qualquer apresentação formal de Sua pessoa que é autoexistente (Êxodo 3.14,15) e a fonte de toda a vida (João 5.26), assim o Novo Testamento não oferece respostas lógicas, racionais e convincentes, simplesmente para satisfazer as expectativas eclesiológicas quanto ao sistema de governo eclesiástico. Quando se lê Atos 15.1-29 vê-se o relato de uma questão acerca de uma prática judaizante. Os Vv-1-5 narram que Paulo e Barnabé e mais algumas pessoas debateram sobre o que os judeus estavam exigindo dos gentios em torno da circuncisão e sua participação na salvação e na igreja cristã; os Vv-6-11 narram sobre o primeiro concílio (assembleia de prelados) da igreja cristã efetuado em Jerusalém, que reuniu apóstolos e presbíteros nessa cidade; e os Vv-12-29 narram sobre a decisão deste concílio enviado à Igreja de Antioquia. À primeira vista, este concílio parece ser um Tribunal Superior Eclesiástico, mas esta opinião não corresponde à realidade. No princípio do cristianismo, as igrejas locais gozavam de grande autonomia, isto é, elas tinham um sistema de governo eclesiástico independente, suas prestações de contas eram dadas diretamente a Jesus Cristo, o Senhor e Juiz da Igreja que tinha a liberdade de se dirigir a cada igreja local, representada na época pelas sete igrejas da Ásia Menor (cf. Apocalipse 1.4 a 3.22), onde Jesus Cristo apa­rece no meio de sete candeeiros. Não existia um sistema de governo eclesiástico centralizador nem tampouco denominações (nomes de igrejas). Todas as igrejas locais estavam diretamente debaixo da liderança de Jesus Cristo que era “a Ca­beça da Igreja” (Efésios 4.15; 5.23; Colossenses 1.18,24) e do Espírito Santo, aquele que dirigia as decisões da mesma (cf. Atos 15.28a; 13.2). Pergunta: Por que a autonomia das igrejas locais no princípio do cristianismo foi muito importante? Respostas: (1ª) Para proteger a igreja. Essa proteção foi importante para que homens inimigos da sã doutrina não assumissem o governo centralizador. Pois estes queriam fundar uma associação ou convenção de igrejas debaixo de um sistema de governo eclesiástico autoritário (dominador, arrogante) e totalitário (centralizador de todos os poderes agindo por meio de ordens ou decretos), com isso para obter sucesso nos seus intentos só precisava controlar alguns líderes das igrejas locais. Sendo assim as igrejas locais no princípio do cristianismo não reconheceram nenhum sistema de governo eclesiástico autoritário e totalitário, por isso foram mais bem preparadas para resistir às opressões despóticas dos mandões absolutos. A Igreja de Antioquia através de sua liderança não recebeu nenhuma convocação da Igreja de Jerusalém; foi ela que tomou a iniciativa de consultar as lideranças daquela Igreja. A decisão do primeiro concílio da igreja cristã que reuniu apóstolos e presbíteros em Jerusalém (Atos 15.22) teve a exclusiva orientação divina: “…Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais…” (Atos 15.28). Os membros do concílio – apóstolos e presbíteros – não se colocaram como árbitros ministeriais com poderes de normatizar ou regulamentar outras coisas, mas apenas como um grupo de homens de Deus e apoiados por toda a Igreja (Atos 15.22) se limitaram a dar apenas algumas ordens necessárias (Atos 15.28,29). Assim sendo, Paulo, Barnabé, Judas e Silas enviados a Antioquia leram a carta enviada pelo concílio e houve grande alegria em toda a Igreja (cf. Atos 15.22,30,31). (2ª) Evitar a divulgação de erros doutrinários. Se no princípio do cristianismo as igrejas se associassem ou se convencionassem a um sistema de governo eclesiástico autoritário e totalitário, a apostasia poderia ter tomado conta de todas elas. Infelizmente essa é uma das coisas que estamos vendo em muitas denominações, e em seus Seminários ou Escolas de Profetas. Muitas lideranças evangélicas na atualidade estão entendendo que se as igrejas fossem autônomas, com toda certeza Satanás não teria tantas vitórias como tem tido, pois ele precisaria lutar contra várias igrejas independentes.A história da igreja fala por si, e o testemunho mais puro de Deus é mantido por igrejas livres do domínio huma­no que têm se tornado a “…Babilônia, a Grande, a Mãe das Meretrizes e das Abominações da Terra…” (Apocalipse 17.5; 19.2,3).

 

Pr. Isaac Pinto de Oliveira

Presidente do Conselho de Doutrina

Professor de Teologia Sistemática do SETEPEB

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8 Comments

  1. Pr. Davi Coutinho Reply

    Muito pertinente o comentário de nosso irmão Pr. Isaac; pois a igreja evangélica no Brasil passa por uma grande crise de identidade em todos sentidos, e o comentário do Pastor Isaac nos remete aos dias apostólicos para buscar um referencial bíblico, entendo ser essa a única maneira de correta de encontrar norte para todas questões relacionadas à Igreja. Entretanto entendo que nos dias apostólicos tínhamos um sistema misto: em termos doutrinários a igreja era episcopal e na administração dos seus recursos era congregacional.
    Parabéns pela matéria.

  2. Marcio Reply

    Sou assembleiano e simpatizo muito com o modelo congregacional, você sabe me dizer se no Brasil alguma igreja pentecostal principalmente assembleia de deus adota esse tipo de governo eclesiástico?

  3. Ferreira Reply

    O texto demonstra a importância do governo local, embora não haja o fecho concluindo. Entendo então, que o governo local deve ser, auto-propagador, auto-sustentável, e autônomo em sua administração. Entendo tb que não exclui orientações Ministeriais, pela cobertura espiritual e importância da visão da Igreja mãe. Certo?

    1. Ferreira Reply

      Outra ponderação. Me pareceu que as decisões ordinárias não eram levadas a todos mas à liderança local, certo? Ou seja, nao vi decisões congregacionais, mas decisões dos líderes nas Igrejas. Quando se diz: “pareceu bem a Igreja” entendo que a liderança decidia pois eram pessoas discipuladoras da fé e não neófitos, como ensina a palavra.

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